EUA, URSS/Rússia e os equilíbrios e desequilíbrios estratégicos e militares (1989-2016)

O conceito de segurança internacional, em linhas gerais, se relaciona ao conjunto de medidas tomadas por Estados ou grupos com atuação internacional para garantir a sua sobrevivência e segurança. Tais medidas podem incluir acordos e convenções diplomáticas, ajuda mútua e ação militar.

O paradigma tradicional de segurança internacional é bastante específico e se refere normalmente à segurança do Estado, dentro de uma perspectiva realista. Dentro deste paradigma, questões como o equilíbrio de poder e o caráter anárquico e competitivo do sistema internacional predominavam. Como resultante, o aspecto militar também era valorizado como a chave, em última instância, para a sobrevivência do Estado frente aos outros, já que seria o único capaz de prevenir uma invasão por Estados vizinhos ou, ao menos, garantir a sua soberania.  Claro que uma perspectiva de cooperação e segurança coletiva, através de organismos como a ONU, também existia, mas era, a meu ver, eclipsada pela primeira.

Depois do fim da Guerra Fria, a mudança do cenário internacional levou a mudanças no próprio conceito de segurança internacional e a discussões sobre quais seriam seus objetivos e meios. Alguns autores procuraram substituir “segurança do Estado” por “segurança humana” como objetivo a ser alcançado e procuraram indicar como fome, doença, violência, corrupção e outras questões também seriam objetos da segurança internacional, já que geravam insegurança nas pessoas e, potencialmente, ameaças aos próprios Estados. Outros problemas já existentes, como o terrorismo, o narcotráfico, a imigração ilegal ou a degradação ambiental, passaram a receber uma nova ênfase, sendo relacionados como problemas centrais para a segurança da humanidade e dos próprios Estados (Messari 2003).

Até como derivação lógica dessas novas discussões, as ideias de cooperação, medidas coletivas e outras, já defendidas e utilizadas no período anterior, receberam grande apoio como instrumentos mais adequados para garantir a segurança internacional do que o poder militar. Este poderia ser utilizado para reforçar a cooperação em algumas áreas ou para apoiar a luta contra as drogas ou o terrorismo, mas seu papel central na nova arquitetura proposta para a segurança internacional seria menor.

Não tenho dúvidas de que o conceito de segurança internacional como centrado no Estado e que veria, como únicas ameaças a este, as forças de outro Estado, com ênfase nas militares, precisava realmente ser revisto. Não apenas a segurança dos cidadãos é mais coerente com a democracia, como, no mundo atual, os riscos reais de invasão e conquista de um Estado por outro são limitados.

Ameaças ambientais, terrorismo, criminalidade, conflitos étnico-religiosos e outras, por outro lado, são perigos reais não apenas às pessoas, como aos próprios Estados, o que indica que eles devem ser incluídos na agenda da segurança global (Villa 1994 e 1999; Haflendorn 1991). Nesse contexto, nem tudo pode ser resolvido com a força militar e a experiência dos anos de George W. Bush no governo dos Estados Unidos (quando alguns de seus conselheiros pareceram pensar justamente o oposto) indica isso.

No entanto, tenho dúvidas se a ampliação exagerada do conceito não traz mais problemas do que soluções. Afinal, se tudo é questão de segurança internacional, então ela não existe enquanto tema específico. Os Estados ainda são os atores centrais na segurança internacional (o que não significa negar a crescente importância de atores não estatais) e o poder militar ainda é um elemento central na relação entre eles. Além disso, os problemas ambientais, de criminalidade, etc. podem muito bem se transmutar em disputas militares, mas, a princípio, são problemas de outra ordem. Assim, tendo a concordar com Miller (2001) quando diz que a força e o conflito são os principais focos de estudo da área de segurança internacional.

Claro que muitos autores não pensam assim e, mesmo em documentos oficiais, a confusão entre os termos “defesa e “segurança” é contínua, ainda que os dois não sejam equivalentes, mas relacionados. Mesmo assim, para fins analíticos, considero que a confusão conceitual faria mais mal do que bem e, neste texto, estarei centrado nas questões mais relacionadas à defesa propriamente dita, ou seja, nas disputas entre os Estados e o uso do poder militar nas mesmas.  

Assim, concordo que a segurança internacional não se limita a segurança militar dos Estados e que o mundo é muito mais complexo do que uma simples disputa de forças entre eles. Não obstante, considero que a capacidade dos Estados em utilizar seus elementos de poder militar para garantir a sua sobrevivência, soberania e influência no mundo ainda é de suma importância, mesmo nos dias de hoje,  e que observar as relações de poder neste campo pode ser de utilidade para compreendermos o cenário internacional atual e as mudanças nas décadas posteriores à queda do muro de Berlim.

O foco do  artigo Estados Unidos, URSS/Rússia e os equilíbrios e desequilíbrios estratégicos e militares entre 1989 e 2016., publicado no volume 17 de Meridiano 47 (Journal of Global Studies) é o cenário estratégico mundial e as transformações sofridas pelo mesmo no período entre 1989 e 2016. Ele dará especial atenção aos Estados Unidos e a União Soviética/Rússia, o que é explicável pelo fato de serem estes os dois Estados que estavam no topo da pirâmide estratégica em 1989 e porque a evolução do poder militar de ambos – diametralmente oposta – é a chave da configuração atual do sistema de poder internacional, ao menos no campo militar.

Leia o artigo:

BERTONHA, João Fábio. Estados Unidos, URSS/Rússia e os equilíbrios e desequilíbrios estratégicos e militares entre 1989 e 2016. Meridiano 47 – Journal of Global Studies, [S.l.], v. 17, mar. 2016.

 

João Fábio BertonhaDepartamento de História, Universidade Estadual de Maringá, Maringá – PR, Brazil (fabiobertonha@hotmail.com)

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