Indigenous Knowledge in the Anthropocene – uma entrevista com Cristina Inoue, por Natália Coelho

A constatação de que vivemos na era do Antropoceno, em que a humanidade é força motora responsável pelo desencadeamento de transformações climáticas, geológicas e ambientais, suscitou questionamentos quanto à pertinência do princípio moderno-positivista de separação entre os fenômenos humanos e os naturais. No artigo Many Worlds, Many Nature(s), One Planet: Indigenous Knowledge in the Anthropocene?, publicado na edição especial Many Worlds, Many Theories? da Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI (Volume 59 – N. 2) Cristina Inoue e Paula Franco Moreira, discutem a inadequação da dicotomia natureza-sociedade para o estudo das Relações Internacionais (RI) e demonstra como a inclusão epistemológica dos sistemas de conhecimento dos povos indígenas pode contribuir para o conhecimento científico.

A emergência das Relações Internacionais (RI) como disciplina acadêmica foi fortemente influenciada pelo contexto das duas grandes guerras mundiais. Por conseguinte, as teorias clássicas do nascente campo de estudos focavam nas principais dificuldades que afligiam as nações durante a primeira metade do século XX: a paz e a segurança internacionais. Conquanto permaneçam centrais no debate contemporâneo de RI, as teorizações tradicionais perderam espaço relativo para abordagens cujo centro de atenção gira em torno de outros fenômenos interestatais, transnacionais e mundiais. Neste contexto, houve o adensamento da temática ambiental, não apenas no campo das RI, mas também nas demais ciências sociais. A busca por apreender a miríade de processos envolvidos nas questões relacionadas ao meio ambiente levou à constatação da ineficiência da percepção dicotômica do binômio sociedade e natureza e à emergência de novas abordagens teóricas nas RI.

A respeito da sua contribuição para esse campo, a professora Cristina Inoue, gentilmente, concordou em conceder uma entrevista para Natália Coelho, da equipe editorial da RBPI.

O artigo elucida que a modernidade consolidou um sistema de crenças que se baseia na dicotomia entre sujeito e objeto; entre humanidade e natureza. Esse fundamento foi questionado por teorizações pós-positivistas, que ressaltaram a importância da cultura e da identidade para a compreensão da política mundial. Como as percepções das populações indígenas contribuem para esse processo de superação da dualidade da era pós-moderna?

A principal contribuição do conhecimento indígena à superação da dualidade pós-moderna reside no fato de este não ser dicotômico. Ou seja, a dicotomia, presente na ciência Ocidental, não existe na experiência indígena, portanto, o diálogo entre o conhecimento de povos autóctones e o científico ajudar a superar essa dicotomia.

É importante ressaltar que não se trata de substituir uma visão pela outra, mas de construir um diálogo, uma percepção sistêmica das inter-relações entre os dois tipos de conhecimento e os diferentes modos de apreender a realidade. Dessa forma, fica claro que não se pretende a adoção de uma postura anticientífica, mas de buscar complementariedade e paridade epistemológica das cosmovisões de populações indígenas com a perspectiva científica.

Os estudos acadêmicos em Relações Internacionais têm passado por processo de abertura a diferentes visões do mundo, como retratado nos conceitos “many worlds”, “worldism” e “pluriverse”. Dessa forma, qual seria o impacto de inserir cosmologias não-Ocidentais, em especial as de povos autóctones, para a ontologia e a epistemologia das Relações Internacionais? Como conciliar essa inserção com a manutenção de um sentido de unidade e de coerência nos desenvolvimentos teóricos da disciplina?

Essa é uma questão bem importante. Não há uma resposta pronta. Trata-se de um processo ainda em construção. Ao defender estabelecer um diálogo, não se diz que não se deve ter rigor metodológico. Ter uma abertura para cosmologias não Ocidentais, implica um processo de pesquisa acadêmica criterioso, ao mesmo tempo, aberto para outras fontes de conhecimento e uma atitude crítica e reflexiva Não é um espiral em que vale tudo. Sobre como construir um campo de estudos plural e, ao mesmo tempo, manter um sentido de unidade, acho que depende mais da conscientização da comunidade de pesquisadores da área quanto à necessidade de manter um espaço aberto para questionamentos, diálogos e um processo de autorreflexão contínuo.

A disciplina de RI e seus estudiosos devem ter essa abertura para que este seja um campo plural. O mais plural possível. Por exemplo, ter abertura para empregar fontes nas pesquisas que não seriam, a priori, consideradas científicas (como escritos pré-coloniais). Ter a pluralidade mantendo a unidade é um desafio que depende da comunidade de estudiosos.

No Brasil as Relações Internacionais já nasceram como campo plural, com abertura para a historia, o direito e a economia. É salutar manter essa multidisciplinaridade e abrir o campo ainda mais. Percebe-se, atualmente, que várias questões podem ser consideradas como dentro da área de relações internacionais se forem abordadas como um problema global. Por exemplo, recentemente conversei com uma acadêmica que estuda os agricultores indianos que cometem suicídio por perderem sua produção. Este se torna um problema global quando se percebe que ele está relacionado aos impactos da mudança climática, ou às vulnerabilidades do sistema agrícola resultado da chamada revolução verde. Então, o que parecia não ser um fenômeno das RI é totalmente uma questão de pesquisa do nosso campo. “Worlding”, significa, assim, tornar visível o que em princípio era “invisível” às nossas lentes convencionais de RI.

Você emprega o conceito de diversidade biocultural para demonstrar a ligação inexorável existente entre os sistemas ecológicos e as variações culturais e linguísticas. A senhora poderia comentar e ilustrar como ocorre esse vínculo?

Os etnobiólogos têm dito que há uma relação entre a diversidade biológica e variabilidade cultural. Eles estão percebendo que em vários lugares ricos em biodiversidade encontra-se, igualmente, grande diversidade cultural. A hipótese é de que a interação das populações com ecossistemas variados gera “socio-biodiversidade”. O Brasil, além de um país megadiverso do ponto de vista da biodiversidade, é também rico em socio-diversidade. Daí a noção de socio-biodiversidade.

Disso também decorre a importância dos povos indígenas e das populações tradicionais para a manutenção da biodiversidade. Essa não separação entre os sistemas ecológicos e as variações sociais, culturais, linguísticas está vinculada a valorização de outros modos de vida, que trazem muitos conhecimentos não reconhecidos pela cultura ocidental.  

No artigo, afirma-se que a divisão entre natureza e sociedade é a raiz da hodierna crise ambiental. Seria possível explicar essa causalidade?

Vários autores têm falado nisso, mas o Héctor Leis foi quem me chamou a atenção para essa questão. Ele diz que, na modernidade, os processos socioeconômicos se construíram em desacordo com a natureza. Os ciclos de produção e consumo são apartados da natureza: consumimos mais do que a natureza produz; descartamos mais do que ela pode processar. Como ilustração pode-se citar o gás carbônico. Embora este exista na natureza, estamos produzindo tanto a mais que tem causado uma série de consequências negativas, como a mudança global do clima.

Todos nós estamos imersos nesse sistema, não refletimos sobre os processos, de onde vem e para onde vão as coisas. Tudo parece mágico, distante, porque os processos econômicos se construíram assim, baseados na separação entre sociedade e natureza. O que se tem dito é que a economia precisa reproduzir a natureza. Os sistemas produtivos deveriam ser cíclicos: não se consome mais do que a natureza pode produzir e não se descarta mais do que ela pode processar. As pessoas pensam que os problemas ambientais estão longe delas e não percebem as inter-relações entre suas ações e os problemas ambientais, entre o âmbito individual e o todo. Ao mesmo tempo, como se trata de sistemas de produção e consumo globalizados, a única forma de mudar é por meio da ação coletiva.

Leia o artigo

Inoue, Cristina Yumie Aoki, & Moreira, Paula Franco. (2016). Many worlds, many nature(s), one planet: indigenous knowledge in the Anthropocene. Revista Brasileira de Política Internacional, 59(2), e009.

 

Sobre as autoras

  • Cristina Yumie Aoki Inoue é professora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB.
  • Paula Franco Moreira é pesquisadora associada do Programa de Pós Graduação Ciências do Ambiente da Universidade Federal de Tocantins – UFTO.
  • Natália Coelho é membro da equipe editorial da Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI e doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

 

 

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