The weight of ideology on the attitude of Latin American countries toward the United States, uma entrevista com João Botelho e Vinícius Alves

As relações comerciais e políticas da América Latina sempre tiveram como seu pivô os Estados Unidos da América. Por conta de preconceitos e percepções passadas, no imaginário coletivo costumeiramente se entende que governos de esquerda tendem a ser mais distantes do governo norte-americano, enquanto governos de direita tendem ao contrário.

Embora exista na literatura indícios que contribuem para essa hipótese, existem outras visões de cunho mais pragmático que deixam essa dualidade mais ambígua. Vislumbrar os Estados Unidos como parceiro comercial ou estratégico, interesse em auxílio econômico no curto e médio-prazo e a possibilidade da concretização de acordos comerciais podem alterar o espectro dessas relações rapidamente.

No artigo “The weight of ideology on the attitude of Latin American countries toward the United States“,  publicado no número 1/2017 da Revista Brasileira de Política Internacional, é discutido a influência de fatores ideológicos nas relações de países latino-americanos com os Estados Unidos da América.

O professor João Carlos Amoroso Botelho, professor de ciência política da Universidade Federal de Goiás, e Vinícius Silva Alves, doutorando em ciência política pela Universidade de Brasília, conversaram na entrevista concedida ao mestrando Renato Ventocilla Franco questões metodológicas referentes ao artigo, a consistência do fenômeno chamado de “Onda Rosa” e a influência chinesa na América Latina.

1- A metodologia usada para o trabalho de vocês é muito interessante, mas como ela poderia ser adequada de modo a mensurar candidatos que fogem ao arquétipo tradicional de direita ou esquerda, tendo como exemplo o posicionamento do atual presidente dos Estados Unidos?

Os dados sobre ideologia que o artigo utiliza são provenientes do Proyecto Élites Parlamentarias Latinoamericanas, mais conhecido pela sigla PELA, do Instituto de Iberoamerica, da Universidad de Salamanca, onde fiz o doutorado. Esse projeto faz entrevistas com deputados a cada legislatura nos países latino-americanos e, entre outras perguntas, pede que classifiquem na escala esquerda-direita uma série de partidos e políticos. A escala vai de 1 a 10, sendo que 1 é esquerda, e 10, direita. Então, o que o entrevistado faz é situar partidos e políticos nessa escala. A partir das respostas, se calcula a média para cada partido e político. Nesse caso, não haveria nenhuma dificuldade metodológica em situar Donald Trump ou outro político de estilo parecido na escala. Talvez, seja mais difícil para quem responde fazer uma avaliação, mas para a aplicação da metodologia, não.

2- A influência da China poderia alterar o tabuleiro político estabelecido, como por exemplo as posições dos países latino-americanos na UNGA, pois teriam mais poder de negociação em frente aos Estados Unidos e ao FMI?

O que o artigo analisa é o peso da ideologia na postura dos países latino-americanos perante os Estados Unidos, mostrando que ela é importante e mais relevante do que explicações alternativas, como a força relativa no cenário internacional ou a dependência de empréstimos externos. Nesse sentido, a expectativa de que governos de esquerda na América Latina sejam críticos dos Estados Unidos e governos de direita sejam simpáticos se confirma. Não há, portanto, a intenção de explicar como os países latino-americanos votam na UNGA, e sim, utilizar as votações nesse fórum como um indicador das suas posições em relação aos Estados Unidos. Se, como mostra o artigo, a ideologia é importante para explicar a postura dos países latino-americanos perante os Estados Unidos, se pode esperar que uma China influente atraia governos críticos dos estadunidenses e crie um contrapeso aos Estados Unidos.

3- Seria possível, a partir do período analisado, classificar a posição ideológica do continente latino-americano como ondas? A exemplo da chamada “onda rosa” que predominou na primeira década do século XXI e ainda é remanescente em alguns países da América Latina?

Sim, é possível, ainda que eu prefira falar em ciclos. O período analisado no artigo (1995-2013) abrange o fim do ciclo de governos que promoveram reformas de orientação neoliberal e também o ciclo de governos que, em contraposição a essas reformas, incrementaram a participação estatal na economia e implantaram programas sociais. O momento atual é de transição para o quê ainda não se sabe bem. Houve o início de um movimento de volta a governos de centro-direita ou direita, com a vitória de Mauricio Macri na Argentina, mas uma direção mais precisa desse movimento ainda está por ser apontada com os próximos resultados em eleições presidenciais, a começar por Equador e Chile neste ano.

4- Existiriam problemas ao encaixar presidentes em posições políticas às quais eles não pertenceriam originalmente? Tendo como exemplo o caso do presidente Obama, que teve que negociar bastante com o Congresso para aprovar algumas medidas e abdicar de outras, como o fechamento de Guantánamo, para conseguir ter governabilidade?

A capacidade de negociar e ceder em certas posições para implantar um programa de governo é mais uma vantagem do que uma desvantagem, mas também pode criar problemas. Um exemplo é o governante que, ao ignorar compromissos de campanha na tentativa de atrair grupos insatisfeitos, aliena sua base de apoio e perde os aliados que lhe restavam, sem, ao mesmo tempo, conquistar novos.

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Botelho, João Carlos Amoroso, & Alves, Vinícius Silva. (2017). The weight of ideology on the attitude of Latin American countries toward the United States. Revista Brasileira de Política Internacional, 60(1), e004. Epub February 06, 2017.https://dx.doi.org/10.1590/0034-7329201600112

About the Author

Renato Ventocilla Franco é mestrando em Relações Internacionais pela Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e membro do corpo editorial da Revista Brasileira de Política Internacional (ventocillarenato@gmail.com)

Como citar este artigo

Secretaria IBRI, "The weight of ideology on the attitude of Latin American countries toward the United States, uma entrevista com João Botelho e Vinícius Alves," in Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, 28/03/2017, http://www.ibri-rbpi.org/?p=15870.

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