Editorial – Desafios e Caminhos do Ensino, Pesquisa e Extensão em Relações Internacionais no Brasil

A ampliação dos cursos de graduação e de pós-graduação, a diversidade das atividades com interface internacional, assim como os avanços teóricos e empíricos da disciplina nos últimos anos evidenciam a consolidação do campo de Relações Internacionais no Brasil. Ao mesmo tempo, as mudanças nas tecnologias da informação, as novas possibilidades de atuação profissional e os desdobramentos interdisciplinares estimulam a discussão sobre o perfil dos egressos, bem como sobre as expectativas do mercado de trabalho e do Estado em relação ao campo.   

Questões sobre ensino, aprendizado e concepções pedagógicas são discutidas e rediscutidas em todas as áreas, assim como a questão das competências e habilidades profissionais. Há um esforço constante em diminuir lacunas entre o que os cursos oferecem, a expectativa dos estudantes e as oportunidades profissionais. O dinamismo do mundo real, do mercado de trabalho e das agendas de pesquisa acadêmicas constantemente estimulam balanços e avaliações sobre o processo de aprender a aprender, de ensinar a aprender e de aprender a ensinar. Para a área de Relações Internacionais essa discussão tem uma relevância adicional, pois, trata-se de uma área estratégica para o desenvolvimento nacional com enorme responsabilidade em formar quadros a serem absorvidos pelo setor privado, órgãos governamentais, não governamentais, academia, entre outros.

A criação da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), em 2005, forneceu forte impulso a essa discussão, para além dos debates que ocorriam e ocorrem nas próprias instituições de ensino e colegiados de cursos pelo país afora, fortaleceu o debate especializado e com outras áreas a partir de perspectivas específicas e garantiu um espaço institucional próprio para a comunidade. O ativismo das discussões no âmbito do Fórum de Coordenadores de cursos de graduação em Relações Internacionais, todo o debate em torno da construção das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), recentemente aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), a formação e as atividades da Área Temática de Ensino, Pesquisa e Extensão em Relações Internacionais no âmbito das áreas temáticas da Associação, a formação de grupos de pesquisa exclusivamente voltados às questões de ensino, são algumas das evidências do adensamento desse processo e de fortalecimento do campo de estudos. Também demonstram o comprometimento da comunidade em discutir formas de associação entre o conhecimento acadêmico e o cotidiano das relações internacionais, bem como sobre o enorme desafio de como operacionalizar a interdisciplinaridade e a transversalidade na formação de estudante da área.

Os profícuos debates realizados no âmbito de mesas redondas e painéis da área temática de Ensino, Pesquisa e Extensão no 5º Encontro Nacional da ABRI, em 2015, em Belo Horizonte, e no 3º Seminário de Relações Internacionais: Graduação e Pós-graduação, sediado em Florianópolis, em 2016, indicaram que do ponto de vista da produção científica, de forma geral, é possível considerar que há uma quantidade expressiva de trabalhos sobre a área de Relações Internacionais no Brasil na perspectiva da sua evolução dos anos 1970 até os dias atuais, sobre a pós-graduação, sobre a natureza da pesquisa e das publicações. Relativamente menor é o número de publicações sobre experiências de ensino de Relações Internacionais de modo mais específico, seja na perspectiva de como ensinar conceitos e teorias de Relações Internacionais, seja na perspectiva da aplicação de formas de aprendizado ativo nesse processo, de integração de disciplinas e outras. Também reduzidas são as publicações sobre a questão da extensão universitária em Relações Internacionais. Pouco se conhece sobre projetos de extensão universitária na área, muito embora sejam crescentes e existam experiências extremamente exitosas, como as que estão retratadas nesse Dossiê.   

O presente Dossiê pretende contribuir para o debate sobre as Relações Internacionais no Brasil, congregando estudos sobre questões e metodologias que movem o campo nas dimensões do Ensino, da Pesquisa e da Extensão, inclusive nas suas inter-relações. Embora a maioria dos trabalhos tenha ênfase em uma dessas dimensões, os artigos do volume, de diferentes formas, demonstram a interligação entre as três dimensões e que avanços específicos possibilitam efeitos multiplicadores para cada uma delas. Assim, a seleção dos textos que compõem o presente Dossiê, em conexão com a chamada de artigos, buscou contemplar trabalhos em torno dos três eixos, de modo que pudessem ser lidos como um debate. Situando a diversidade da área e um equilíbrio de gênero os autores e autoras são provenientes de instituições de ensino de diferentes regiões do país, públicas e privadas, e com títulos acadêmicos em diferentes áreas do conhecimento, oferecendo ricas perspectivas de análise.

Abrindo o volume encontra-se a reflexão da professora Cristina Soreanu Pecequilo (UNIFESP) que avalia a evolução da área de Relações Internacionais por meio de uma instigante análise sobre “fazer relações internacionais” e “estudar relações internacionais”. Esta distinção retrata uma antiga e presente preocupação em torno da identidade dos cursos, estudantes e profissionais formados. Para se analisar e compreender as relações internacionais em sua complexidade é necessário uma formação multi e interdisciplinar. Contudo, se não for bem operacionalizada ou não tiver em conta uma dimensão estruturante, esses aspectos da formação podem ter dois efeitos indesejados: falta de clareza na mente dos estudantes, que podem não conseguir se autodefinir como profissionais que podem atuar em um mercado; e um estranhamento por parte do mercado (decrescente nos grandes centros) acerca do que pode fazer, concretamente, o/a graduado/a em Relações Internacionais.

A partir de relevantes questões presentes no artigo de Cristina Pecequilo (UNIFESP), temos na sequência oito artigos que abordam o ensino de Relações Internacionais. Cristina Inoue (UNB) e Marcelo Valença (UERJ) abrem a discussão apresentando o conceito de aprendizado ativo aplicado às Relações Internacionais e ao contexto brasileiro. Nesta mesma linha, dois textos trabalham com a temática do uso de casos como método para aprendizagem ativa: o trabalho de Michelle Ratton Sanchez Badin (FGV-SP), Arthur Giannattasio (FGV-SP) e Douglas Castro (FGV-SP) e o artigo de Vânia Pinto (UNB), Humberto Correa (UNB) e Fernanda de Medeiros (UNB). Os trabalhos diferenciam a metodologia de pesquisa “estudo de caso” do que chamam de “caso didático” ou “caso prático”, respectivamente. Há um argumento comum no sentido de destacar que o engajamento dos discentes na compreensão dos eventos é o veículo que os levará à aquisição de conhecimentos. Nesse sentido, caberia ao professor, por assim dizer, delimitar o espaço geral de tráfego, mas não estabelecer uma rota precisa à priori. Ambos os artigos abordam de modo extremamente pertinente a literatura sobre esse método e se baseiam em experiências concretas, possibilitando ao leitor uma melhor avaliação sobre seus limites e potencialidades. Certamente despertarão interesse naqueles interessados no tema e na forma de aperfeiçoar o uso da metodologia ativa de ensino.   

Em seguida, dois trabalhos discutem ferramentas específicas de ensino: o cinema e as biografias. Sabe-se que filmes e documentários vêm sendo utilizados há longa data na realização de disciplinas e atividades de extensão. Mas, como aproveitá-los da melhor forma possível em termos didáticos? Qual papel cabe aos docentes? O artigo de Cristine Zanella (UFABC) e Edson Neves Jr (UVV) aborda a bibliografia sobre o tema e reporta duas experiências concretas e bem sucedidas em diferentes universidades. Já a ferramenta apresentada por Rogério de Souza Farias (Universidade de Chicago) – a biografia – parece ser subutilizada na área de RI. A relevante contribuição de Farias reside em apresentar o método biográfico como uma forma oportuna de lecionar conceitos centrais da disciplina. Trata-se de materiais geralmente menos áridos e abstratos do que podem ser os textos teóricos e conceituais. Ademais, ao conhecer biografias para estudar conceitos, os discentes podem diminuir a lacuna apontada por Pecequilo entre as dimensões de “fazer relações internacionais” e “estudar relações internacionais”. O aporte da História sem dúvida é pertinente para esse debate. Assim, o trabalho de Thiago Gehre Galvão (UNB) e Gunther Mros (UFSM) oferece valioso subsídio para o entendimento da dinâmica do lugar da História nas Relações Internacionais.

A busca por alternativas de ensino para além dos limites tradicionais da sala de aula tem continuidade com o artigo das professoras Clarissa Dri (UFSC), Graciela Pagliari (UFSC), Iara Leite (UFSC) e Patrícia Ariente (UFSC). O texto é composto de quatro experiências que buscam preparar os alunos para a “solução de problemas reais”. Duas são de cunho “laboratorial”, de simulação de negociações internacionais e duas são “extra-muros”. No caso das experiências “extra-muros”, uma abordou a questão dos refugiados haitianos por meio de entrevistas com refugiados e atividades fora do campus que lidaram com a percepção da sociedade sobre eles. A outra buscou levar conhecimentos de Política Internacional e Política Externa Brasileira a estudantes do Ensino Médio e de cursinhos preparatórios para a universidade. Os relatos fazem uma interessante aproximação com as atividades de Extensão que, entendemos, são cada vez mais necessárias nos cursos de Relações Internacionais, tanto para agregar maior experiência prática (com reflexos também em Ensino e Pesquisa) aos estudantes, quanto para atacar um problema destacado por Pecequilo: a legitimidade social. Ações de extensão podem contribuir de modo relevante nesse sentido.

A formação na pós-graduação, a pesquisa e a publicação são também ingredientes relevantes na consolidação de áreas acadêmicas. O trabalho de André Coelho (UNIRIO), Vinicius Santos (UNIRIO) e Alice Vieira (UNIRIO) analisa dados da CAPES de 1998 a 2013 para discutir a política de concessão de bolsas e recursos à formação no exterior para a área de Relações Internacionais. A dimensão da pesquisa tem continuidade com a análise de dados referentes à consolidação da pós-graduação na área de Relações Internacionais presente no trabalho de Ana Paula Tostes (UERJ) e Lucca Silva (UERJ), bem como no trabalho de Andrea Lucena (UFG). Tostes e Silva reúnem dados sobre a abertura de programas, bolsas de pesquisa, perfis acadêmicos e internacionalização. A partir da produção de egressos de mestrado, Lucena (UFG) analisa a produção e a difusão de conhecimento na área de Relações Internacionais. A autora explora os fatores que impactam a produção acadêmica, bem como sua classificação, utilizando o Qualis CAPES e outros indicadores.

O artigo de Augusto Teixeira Júnior (UFPB), Valéria de Moura Sousa (UFPB) e Alexandre César Cunha Leite (UEPB), mediante apresentação dos índices de mensuração de capacidades do poder nacional, aborda o tema da operacionalização de variáveis em Relações Internacionais. Os índices apresentados, apesar da sua relevância, são, em geral, pouco conhecidos na comunidade brasileira. Por isso, o texto certamente será de grande interesse para professores e estudantes, para o ensino e para a pesquisa no tema e para as discussões sobre o próprio processo de construção de índices e indicadores em Relações Internacionais.

Três artigos encerram o Dossiê abordando mais diretamente a dimensão da extensão. Eles analisam experiências de interação entre a academia e o mundo “prático”, evidenciando conexões férteis entre o “estudar relações internacionais” e o “fazer relações internacionais”. Duas atividades de extensão estão relacionadas com o mercado privado. Na primeira delas, Diego Coelho (ESPM) e Raphael Videira (ESPM) exploram o caso da Global Jr, uma Empresa Júnior que atua no campo do comércio internacional e da internacionalização de empresas, visando desenvolver o perfil do diplomata corporativo. O artigo busca examinar os impactos desse tipo de atividade de extensão na vida acadêmica e profissional dos estudantes, em termos de desenvolvimento de capacidades e de inserção profissional.

Ainda no campo do comércio internacional, Fernanda Gonçalves (IESP/UERJ), Patrícia Carvalho (UFMG) e Rafael Araújo (Centro Universitário La Salle) reportam a utilização de uma experiência de inteligência comercial na Subsecretaria de Relações Internacionais do Estado do Rio de Janeiro para construir pontes entre ensino e pesquisa. De fato, o trabalho gira em torno de um projeto de pesquisa, mas, no espírito deste Dossiê, nos parece que sua discussão fica igualmente bem posicionada no campo da extensão, justamente pela preocupação em levar para fora da universidade os conhecimentos produzidos e, simultaneamente, utilizar a interação com o mundo extra-acadêmico de forma a fortalecer o ensino, a aprendizagem e a pesquisa.

O vínculo entre pesquisa acadêmica e extensão é novamente observado na experiência trazida por Henrique Menezes (UFPB) e Xaman Minillo (UFPB). Os autores abordam uma atividade que começou como um grupo de pesquisa de Iniciação Científica sobre os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio e acabou evoluindo para um projeto de extensão que visa disseminar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável em cidades do Nordeste, em parceria com o PNUD. Entre outras atividades, os estudantes de Relações Internacionais se tornam protagonistas em capacitações realizadas para professores do Ensino Médio, que poderão incorporar os conteúdos em suas aulas.

Estas três experiências realizam importante diálogo com a questão da “afirmação social da área, em suas múltiplas dimensões”, nos termos apontados por Pecequilo. A consolidação da legitimidade de uma área acadêmica não pode ocorrer sem que seus efeitos sociais sejam também efetivos. A construção da “afirmação social”, que é um trabalho constante e dinâmico, se tornará mais robusta e relevante conforme se fortaleça em conexão com os três alicerces do sistema universitário brasileiro: ensino, pesquisa e extensão. O presente Dossiê pretende ser uma contribuição nesse sentido.

Gostaríamos de agradecer ao professor Antônio Carlos Lessa, editor do Meridiano 47- Journal of Global Studies, pelo apoio decisivo para a viabilização do presente Dossiê. Pertinente lembrar também o relevante papel do prof. Antônio Carlos Lessa para a própria criação da Área Temática de Ensino, Pesquisa e Extensão em Relações Internacionais no âmbito da ABRI, em 2015, e sua atuação decisiva em várias outras iniciativas relacionadas ao ensino, pesquisa e extensão em Relações Internacionais. Gostaríamos de agradecer também a toda equipe da Revista, aos membros do Conselho Editorial e pareceristas. Um agradecimento especial a todos os autores que submeteram seus trabalhos. Considerando a expressiva submissão de materiais de boa qualidade, os textos que foram aprovados, mas não foram publicados no presente Dossiê, serão publicados nas próximas edições do Meridiano 47 – Journal of Global Studies, em continuidade ao debate sobre o tema.

Boa leitura e bom debate!

Haroldo Ramanzini Júnior é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia – UFU (hramanzini@ie.ufu.br) e editor convidado do dossiê Desafios e Caminhos do Ensino, Pesquisa e Extensão em Relações Internacionais no Brasil, publicado no volume 18 de Meridiano 47, Journal of Global Studies;

Thiago Lima é professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba, – UFPB (tlima@ccsa.ufpb.br) e editor convidado do dossiê Desafios e Caminhos do Ensino, Pesquisa e Extensão em Relações Internacionais no Brasil, publicado no volume 18 de Meridiano 47, Journal of Global Studies.

 

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