Academia versus Realidade: Estagnação ou Solidez?

A área de Relações Internacionais no Brasil tem passado por muitas transformações nos últimos quarenta anos, apresentado fases de expansão e crescimento, alternadas com desafios significativos no campo do ensino e da pesquisa. Nesta trajetória, de mais de quatro décadas, podem ser observadas três fases de desenvolvimento: a fase formativa (1970/1990), o boom do ensino privado amparado pelo fim da Guerra Fria (1990/2000) e a expansão do setor público no século XXI (2000/2017). Enquanto a primeira fase ficou restrita à experiência da graduação na Universidade de Brasília (UnB) e à pós-graduação no Instituto de Relações Internacionais na PUC-RJ, a segunda, atrelada à queda do Muro de Berlim em 1989 ampliou o interesse no tema, gerando uma demanda que foi atendida pelas instituições de ensino superior (IES) do setor privado. O terceiro período caracterizou-se pela expansão do curso em nível de graduação e pós-graduação nas universidades públicas estaduais e federais.

Embora a tendência seja indicar que esta é uma linha do tempo particular às Relações Internacionais, esta avaliação precisa ser qualificada. Embora comparativamente, o curso de Relações Internacionais seja “recente” diante de outros tradicionais como Direito, História, Geografia, Ciências Sociais, Economia, somente para mencionar alguns com os quais compartilha a grande área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, muitos de seus problemas são comuns a estes cursos. Tais problemas refletem desde os processos associados à definição das Diretrizes Curriculares Nacionais, aos sistemas de avaliação nacionais sob a responsabilidade do Ministério da Educação, até as oscilações do contexto econômico, social, político e estratégico do Brasil.

Diante destas agendas, o objetivo deste artigo é apresentar uma reflexão sobre as Relações Internacionais do Brasil. Para isso, serão exploradas as características específicas do campo, sua inserção na agenda da educação universitária nacional. Procura-se ir além da discussão do “desenvolvimento tardio”, considerada esgotada e que leva a um debate circular, que repete o mais do mesmo. Esta situação é produto da ausência da afirmação social da área, em suas múltiplas dimensões, que reflete a estagnação vivida, e que se contrapõe à potencialidade de se encontrar solidez.

Na primeira parte do texto, “Para Onde Ir? Os Desafios “De Sempre” e os “Novos”, aborda-se a evolução contemporânea dos cursos de Relações Internacionais, tanto no setor público quanto no privado. Busca-se discutir a atualização dos mecanismos avaliativos destes cursos, incluindo a adoção, em 2017, das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), a correlação das DCN com os processos de autorização e reconhecimento de cursos e com o Exame Nacional de Desempenho (ENADE). Discute-se o impacto destes processos na qualidade dos cursos e a interrelação desta agenda educacional com o cotidiano dos cursos, no que se refere ao perfil do corpo docente e discente. Do ponto de vista discente, ainda são discutidas questões relativas à dinâmica de estudo, pesquisa e estágios, associada à empregabilidade e profissionalização da área.

Objetiva-se desmistificar a temática de que todos os problemas do curso de relações internacionais estariam associados a sua natural fragmentação multidisciplinar, indicando que os pontos de estrangulamento residem em fatores sociais, políticos e estratégicos, e são reflexo da condição nacional. Como pano de fundo destas discussões, que são características da área desde a sua emergência no Brasil, encontra-se a relativa pouca valorização das relações internacionais no país. Tal fenômeno correlaciona-se ao próprio projeto nacional e de política externa brasileira, e a forma como o país percebe a si mesmo e a sua projeção de poder. Assim, os ciclos de encolhimento e expansão da área não podem ser dissociados da dinâmica diplomático-estratégica do país.

Na segunda parte, “As Propostas de Debate”, apresentam-se as dificuldades, e potencialidades da área, trazendo-se duas dimensões de ação propositivas: a formação das novas gerações e a abertura dos diálogos. Destaca-se a relevância de uma atuação mais decisiva das novas gerações. No campo dos diálogos, são identificados cinco tipos: o geracional, o institucional, o social, o nacional-regional e o global. De forma concreta, isso permite a interação de profissionais de diversas formações, origens e temporalidades, de suas instituições e uma aproximação maior com a sociedade indo “além dos muros da escola”. Para isso, não bastam apenas ações de extensão, mas sim o desenvolvimento de uma percepção na sociedade de que relações internacionais são relevantes para seu cotidiano. Em termos regionais, nacionais e globais, o foco é na discussão de um projeto para o Brasil e sua projeção de poder, que respeite as diferenças de suas regiões, e que consolide sua identidade como país sul-americano e do Sul.

Essa agenda esbarra nos problemas conhecidos: a afirmação social da área e o tipo de papel e percepção do Brasil no sistema internacional, e nos modelos de desenvolvimento político-sociais aos quais o país adere. Sem a solução destes dilemas mantém-se um padrão pendular de ações, assim como de valorização e/ou desvalorização das Relações Internacionais.

Leia o Artigo

Pecequilo, C. S. (2017) Academia versus Realidade: Estagnação ou Solidez? Meridiano 47, DOI: http://dx.doi.org/10.20889/M47e18007

Sobre a autora

Cristina Soreanu Pecequilo – Universidade Federal de São Paulo, Departamento de Relações Internacionais, Osasco – SP, Brazil (crispece@gmail.com).

ORCID ID: orcid.org/0000-0003-1617-186X

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