Uma década de consolidação da Pós-graduação em Relações Internacionais no Brasil (2004-2014)

O artigo é uma nota de pesquisa, cuja principal contribuição é a de apresentar dados organizados atualizados sobre o crescimento da subárea de estudo de Relações Internacionais (RI) no Brasil. O artigo ilustra o grau de consolidação da área e as dificuldades remanescentes no marco temporal de 2004 a 2014, com o objetivo de suprir a contribuição para a literatura existente e cobrir o período de maior investimento na subárea, em especial nos Programas de Pós-Graduação (PPGs).

A partir da sistematização de dados organizados pela pesquisa foi possível obter um quadro comparativo, dentro da área de Ciência Política e RI, e ainda em função da grande área de Ciências Humanas. O crescimento no número de PPGs e também na concessão de bolsas, quando analisados em perspectiva comparada com demais cursos de Ciências Humanas demonstra o esforço de consolidação com largo crescimento no período, mas ainda sem significante aumento quando comparada a subárea de RI com outros cursos dentro da grande área de Humanas. Além disso, o crescimento dos cursos de Pós-graduação em RI, comparativamente com a Ciência Política, ainda revela uma dimensão reduzida – retratando a força da Ciência Política – que inclui também linhas de pesquisa em política internacional nos seus PPGs.

É interessante a perspectiva comparada da nota de pesquisa proposta pois dela se verifica que a trajetória da Pós-Graduação em RI no Brasil não aparece desconectada do contexto latino americano. Como mostra Tickner, Cepeda e Bernal (2012), em estudo envolvendo Argentina, Brasil, Colômbia e México, as configurações dos cursos e o perfil dos acadêmicos de RI nesses países são bastante similares. Similaridade que também se reflete nos problemas enfrentados, tais como a carência de doutores em muitos países latino americanos (México é uma exceção) e dificuldades de suporte à internacionalização. Fatores que são absolutamente compatíveis com a jovialidade e o processo de consolidação pelo qual a subárea de RI sucede na região.

Comparativamente à grande área de Ciências Humanas, quando observamos os índices de concessão de bolsas, percebe-se que o número de bolsas de mestrado concedidas para Ciência Política e RI no intervalo estudado apresenta um crescimento levemente menor em relação ao restante dos cursos (98% em relação à média geral de 133%). Já os números referentes à concessão de bolsas de doutorado apresentam um padrão inverso.

Uma vez que os doutorados em RI aumentaram significativamente, naturalmente isso se refletiu em uma taxa maior de crescimento para as bolsas de doutorado (234%) em relação às bolsas de mestrado (75%) no período estudado. Já a Ciência Política apresentou um crescimento mais equilibrado no número de bolsas tanto para o mestrado (118%) quanto para o doutorado (142%). Esse crescimento de bolsas de doutorado, comparativamente maior do que de mestrado, pode ser atribuído a dois fatores. O primeiro foi a crise que afetou agências financiadoras de pesquisa no país, e segundo, o fim do Programa San Tiago Dantas. Ainda assim fica evidente o crescimento no número de doutorados e de bolsas de doutorado como um fator relevante para a qualificação de profissionais de RI e consequentemente a consolidação da subárea de conhecimento no país.

No que se refere à internacionalização dos profissionais, verificamos que há um número maior de pesquisadores se especializando no exterior em Ciência Política do que em RI. No entanto, destaca-se um crescimento considerável no que se refere ao número de bolsas para o exterior concedidas para RI entre os anos de 2011 e 2013. Finalmente, é necessário ainda enfatizar que o último ano analisado nesta pesquisa, ano de 2014, marcou o início do declínio das ofertas de bolsas no Brasil e no exterior, suspensões e cortes.

Nota-se também que a literatura disponível sobre o fortalecimento da subárea de RI no Brasil (Ferreira, 2015; Miyamoto, 2003; Santos, Fonseca, 2009), focada principalmente nos cursos de graduação, normalmente atribui seu crescimento a fatores externos, como a globalização e a maior participação do Brasil no mercado internacional. A pesquisa conclui que no caso dos PPGs há uma inversão de impacto. Ou seja, no caso da Pós-Graduação o principal fator que gerou seu crescimento foi o mercado interno. Ou seja, o crescimento anterior das graduações em RI impulsionou o mercado acadêmico na subárea específica de estudos e o crescimento da Pós-Graduação se justifica em função da necessidade de mestres e doutores especializados em RI.

Finalmente, seria necessária uma ampla pesquisa sobre os egressos dos cursos de graduação e Pós-graduação em RI para se compor um diagnóstico mais exaustivo sobre o impacto social e no mercado de trabalho que os novos profissionais especializados em RI podem causar. Além disso, a verificação eventualmente positiva da capacitação e inserção dos egressos dos cursos especializados em RI legitimaria o aumento de investimento na subárea, naquilo em que demanda seu diferencial, mas tem sido mais custoso: sua internacionalização de forma mais aguerrida.

Leia o Artigo

Tostes, A. P., Silva, L. V. (2017) Uma década de consolidação da Pós-graduação em Relações Internacionais no Brasil (2004-2014), Meridiano 47, DOI: http://dx.doi.org/10.20889/M47e18016

Sobre os autores

Ana Paula Tostes

Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Departamento de Relações Internacionais, Rio de Janeiro – RJ, Brazil (aptostes3@gmail.com).

ORCID ID: orcid.org/0000-0002-9642-6211

Lucca Viersa Silva

Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Departamento de Relações Internacionais, Rio de Janeiro – RJ, Brazi (luccavbs@hotmail.com).

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