O desenvolvimento de competências por meio da extensão universitária

As atividades de extensão são consideradas pilares da função universitária, indissociáveis do ensino e da pesquisa. Contudo, embora um campo previsto constitucionalmente e cujas premissas são objeto de escrutínio em fóruns universitários, os projetos brasileiros de extensão ainda carecem de ampliação da reflexão sobre a sua oferta, práticas, objetivos e potenciais contribuições, além da realização de um número maior de pesquisas que busquem mensurar empiricamente os seus impactos, quer ao meio acadêmico quer à sociedade. Tais demandas adquirem prominência, uma vez que as atividades de extensão contemporâneas são complexas e se situam além da unilateralidade que normalmente o discurso corriqueiro determina ao seu papel, em que muitas vezes é vulgarizada como uma mera ação da universidade no meio social.

É importante ressaltar que, atualmente, a extensão universitária tem se constituído como uma dinâmica interacional e retroalimentativa, configurando-se não apenas em meio de impacto e transformação da sociedade, mas, também, em canal de problematização de suas bases pedagógicas e de espaço estendido por excelência da sala de aula, sendo importante vetor de desenvolvimento de competências mediante aprendizagem experiencial. Trata-se, portanto, de uma atividade que extrapola a simples ideia da universidade atuando na sociedade, passando a ser pensada como o vínculo que justifica e constrói a própria existência das instituições de ensino superior com o seu meio social, seja como impactante, seja como impactado.

Nesse contexto, o presente artigo tem por objetivo situar a extensão universitária a partir de um paradigma interacional, que a assume como importante vértice da aprendizagem experiencial, capaz de promover por meio de suas práticas influência positiva no desenvolvimento de competências acadêmicas e profissionais dos estudantes. Para investigar este papel defendido para extensão universitária, o artigo promove a discussão acerca de sua relevância para formação de conhecimentos, habilidades e atitudes relacionados aos referenciais acadêmicos de formação e às práticas profissionais das Relações Internacionais. O fio condutor para realização dessa análise foi um modelo específico de atividade extensionista: a empresa júnior, iniciativa recentemente regulamentada no Brasil pela Lei 13.267/2016. Esta escolha se justifica pelos objetivos manifestados por este tipo de atividade, os quais estão arraigados na promoção de oportunidades para que os estudantes apliquem os seus conhecimentos teóricos adquiridos em ensino e pesquisa em experiências com casos reais da sociedade.

Para consecução de seus fins investigativos, utilizou-se como caso de estudo a Global Jr., empreendimento júnior extensionista do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de São Paulo, cujo projeto pedagógico de formação é de perfil associado à diplomacia corporativa. As opções de investigação por uma atividade de extensão em uma instituição de ensino superior privada e por meio de uma empresa júnior não são ocasionais. Pelo contrário, visam estimular a ampliação do papel do extensionismo no Brasil com relação aos seus modelos, ofertantes e perfil de estudante. Pois, não obstante o debate em curso no País ainda tenda a ser extremamente concentrado e capturado pelas instituições de ensino federais e estatuais, as universidades privadas, bem como em outras formas não públicas de organização do ensino superior, como centros universitários e faculdades, têm incorporado premissas normativas e de fronteira sobre a extensão em suas atividades, com muitas delas, inclusive, com o posicionamento de sua oferta acadêmica tendo no extensionismo um dos seus diferenciais de mercado. Nesse sentido, problematizar o tema e analisar os seus resultados além das tradicionais atividades realizadas pelas universidades públicas se tornam tarefas importantes para avançar sobre a questão a partir de diversas perspectivas, diferentes potenciais de impactos e troca de experiências.

Os dados prospectados e analisados com estudantes do curso de Relações Internacionais da ESPM-SP ao longo do artigo revelaram que os indivíduos que passaram pela Global Jr. manifestaram percepções mais positivas acerca de algumas competências, principalmente naquelas que são relacionadas ao empreendedorismo, quando comparado aos demais da mesma instituição e curso. E, embora não seja possível afirmar diferenças estatisticamente significantes entre esses grupos, dada a natureza do estudo realizado, as análises exploratórias acabaram por sugerir a possibilidade da formulação de hipóteses de que a prática extensionista por meio de empresa júnior faça diferença no desenvolvimento de competências mais demandadas pelo mercado, quer ao nível organizacional, no caso aquelas associadas a empreendedorismo e gestão, quer técnico, por meio, na atividade da diplomacia corporativa, na ação constante de vislumbrar a dinâmica global no local.

Logo, pensar o extensionismo universitário em Relações Internacionais por meio das empresas juniores pode ser um estratégia relevante para compor a formação do novo profissional da área que, para responder às determinadas demandas do mercado contemporâneo, são compelidos a saber mobilizar conhecimentos, habilidades e atitudes que sejam aderentes a uma lógica empreendedora, de gestão e outras pertinentes às atividades empresariais em um mundo de lógica e competição global, tal qual muito bem caracterizado no escopo de atuação do diplomata corporativo.

Leia o Artigo

Coelho, D. B., Videira, R. A. (2017) O desenvolvimento de competências por meio da extensão universitária: o caso da Global Jr. ESPM-SP na formação do diplomata corporativo, Meridiano 47, DOI: http://dx.doi.org/10.20889/M47e18020

Sobre os autores

Diego Bonaldo Coelho – Escola Superior de Propaganda e Marketing, Departamento de Relações Internacionais, São Paulo – SP, Brazil (diego.coelho@espm.br).

Raphael Almeida Videira – Escola Superior de Propaganda e Marketing, Departamento de Relações Internacionais, São Paulo – SP, Brazil (raphael.almeida@espm.br).

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