Brazilian hybrid security in South America – uma entrevista com Rafael Villa, por André Pini

As dinâmicas de segurança do continente sul-americano constantemente são o objeto de diferentes interpretações por parte de acadêmicos ao redor do mundo, que se dividem entre os que acreditam que a região caminha para a conformação de uma comunidade de segurança, enquanto outros ponderam que a região ainda é pautada por políticas de equilíbrio de poder. Em torno desse debate, um tema recorrente de análise é o papel desempenhado pelo Brasil enquanto um dos atores mais influentes na região.

O pesquisador da Universidade de São Paulo, Rafael Duarte Villa debruça-se em torno do tema no artigo Brazilian Hybrid Security in South America, publicado na edição especial da Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI International Security and Defense – Taking stock of Brazil’s changes (Volume 60 – N. 2, 2017), buscando oferecer sua interpretação acerca do papel desempenhado pelo Brasil nas dinâmicas de defesa e segurança sul-americanos. Buscando superar a dualidade de argumentos presente na literatura acerca do tema, o autor realizou esforços pautados por dados empíricos de modo a desenvolver seu argumento, que defende uma atuação híbrida por parte do país.

Rafael Villa concedeu entrevista sobre o seu artigo a André Mendes Pini, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e membro da equipe de divulgação da RBPI.

Avaliando a conjuntura sul-americana contemporânea, talvez possamos identificar duas tendências opostas em termos da segurança da região. De um lado temos a Colômbia caminhando para a consolidação de um processo de distensão com as FARC, enquanto na Venezuela o escalonamento da violência pautada em questões políticas parece se intensificar. Em sua opinião, como essas questões podem afetar a dinâmica de segurança sul-americana?

A incorporação da Farc tem um impacto forte sobre a dinâmica de segurança regional por várias razões: i) porque diminui a intensidade do até principal conflito intraestatal da região sul-americana; ii) porque diminui a pressão sobre fronteiras de vizinhos, inclusive do Brasil; iii) porque os Estados Unidos já não terão como incluir as FARC como um grupo terrorista atuante na região; e, iv) porque amplia a zona de paz permanente interestatal regional. O conflito venezuelano, de alguma maneira, vai na contramão do conflito colombiano, quer dizer, se consolida, embora seja um conflito mais político que violento, como o principal conflito intraestatal regional, e sua dinâmica envolve uma série de atores regionais que vão desde países que são afetados pelas crises internas (como o Brasil e a Colômbia), passando pelo envolvimento de grupos paramilitares colombianos e as pressões externas de países como os Estados Unidos. A atitude do Brasil deveria ser algo similar a sua atuação, em 2008, no caso da Bolívia, quando evitou, através da forte diplomacia, que o pais fosse dividido pelas províncias do Norte. Porém, neste particular momento, o Brasil não tem nem a qualidade diplomática para desenvolver tal ação e, de outro lado, perdeu sua capacidade de iniciativa e de interlocução com países como a Venezuela, e mesmo no caso do processo que levou ao acordo de paz entre o governo da Colômbia e as FARC. O Brasil passou assim de uma assertiva capacidade de agenda regional em matéria de segurança e defesa para um papel de baixo ou nenhum perfil de atuação.

A região sul-americana historicamente demonstrou-se vulnerável à conjuntura internacional, por vezes emulando práticas e ideias alheias à região ao seu ambiente político, econômico e social. Levando em conta as tendências de recrudescimento dos nacionalismos na Europa e nos EUA, você considera possível uma contaminação da região sul-americana por esses discursos no cenário atual?

O nacionalismo, embora existente em maior ou menor grau na região sul-americana, nunca teve o mesmo impacto que na Europa ou outras regiões do mundo. Para nosso bem-estar, faltaram alguns ingredientes, como fortes ideologias, lideranças com vocação guerrerista, grupos socialmente organizados em fortes de bandeiras nacionalistas, que fizeram com que aquele fenômeno tivesse impacto limitado na região. Essas condições só podem amadurecer no longo prazo, portanto, acredito que estamos longe de replicar as dinâmicas nacionalistas ao estilo Europeu. Por exemplo, no caso da Europa Ocidental o processo de integração periga ser consumido pelos remanescentes nacionalismos que renascem naquela região sobre outras roupagens. No caso sul-americano, embora os interesses de políticas externas de países particulares e a ausência de liderança sejam importantes para explicar o fracasso e estagnação do nosso processo de integração, o nacionalismo, como conhecido na Europa é uma condição ou causalidade pobre para explicar o atual estágio de estagnação e retrocesso político e econômico do processo de integração.

O projeto de criação de um Conselho de Defesa Sul-americano completa uma década de existência no próximo ano. Qual sua avaliação acerca dos avanços logrados ao longo desse período e quais serão os desafios para os próximos 10 anos?

De maneira geral, a criação do Conselho de Defesa Sul-americano (CDS) teve um impacto político em matéria de segurança e defesa muito positivo para a região: i) porque isso significava que a região pela primeira vez tinha uma agenda propositiva institucional e multilateral em relação àquelas duas matérias; e ii) porque sinalizava para atores externos que a região tinha respostas multilaterais autônomas para problemas regionais específicos de segurança e defesa. E, de fato, os primeiros cinco anos de atuação do Conselho (dentro do marco da UNASUL) foram muitos auspiciosos tendo uma capacidade de iniciativa importante em diferentes assuntos que iam desde conflitos intraestatais (caso da Bolívia) ou bilaterais (Colômbia e Equador) na região, ambos em 2008, até projetos de metodologias para a transparência de gastos militares regionais ou o projeto de construção de um avião de treinamento para os países membros do Conselho. Porém, olhando para o presente não está claro o que tem levado a uma perda tão rápida do dinamismo do CDS. Primeiro, porque, mesmo não sendo uma instituição de integração em defesa e segurança, o CDS surgiu nos seus primeiros anos de existência como um importante fórum político para a cooperação em defesa e segurança regional. Hoje, o CDS é mais um fórum de cooperação militar sobre ambas as áreas que de cooperação política; segundo, porque o CDS, ao contrário de seus primeiros anos de existência e até no projeto de criação, carece de lideranças de alguns de seus países. O Brasil, que em principio cumpriu esse papel de maneira muito satisfatória, assumiu novamente esse comportamento híbrido em meu artigo, em que promove a cooperação regional em defesa e segurança, ajudando a construir instituições multilaterais naquelas áreas; porém, logo se retrai propositivas privilegiando a autonomia de seus interesses. Enfim, a capacidade do CDS em trazer agendas propositivas e autônomas em matéria de segurança e defesa está ameaçada de ser uma nova quimera em que a esperança de uma cooperação densa é subordinada às dinâmicas do velho realismo político.

Ao avaliar o ambiente acadêmico e os estudos de defesa e segurança que se focam na região sul-americana, certamente existem algumas lacunas que ainda não foram bem estudadas, seja pela dificuldade na obtenção de dados empíricos, seja pela ausência de marcos teóricos que reflitam nossa realidade. Nesse sentido, quais agendas de pesquisa você considera com maior potencial de desenvolvimento para que jovens pesquisadores possam se debruçar?

Em geral, os estudos de segurança e defesa no Brasil e na região carecem de mais rigorosidade científica. Isso pode estar devendo-se a vários fatores: primeiro, embora em congressos nacionais de relações internacionais como o da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) a temática de segurança e defesa seja a que proliferam mais trabalhos e, inclusive nos últimos 10 anos, tem aumentado a publicação de artigos em ambas temáticas, de outro lado, constata-se a pouca inserção que a disciplina de segurança internacional tem em cursos de graduação e pós-graduação no país. São poucos os cursos lecionados e escassos os docentes que oferecem cursos de segurança internacional ou regional Segundo, os frameworks teóricos não parecem ter a mudança que se deu no estudo internacional de segurança e defesa, apreende-se em muitos casos fatos da realidade sob ótica de conceitos tradicionais baseados nos velhos realismos e liberalismos pouco adequados a uma realidade em mudança. Consistentemente, acredito que uma das principais agendas de pesquisa para esses subcampos específicos das relações internacionais passa primeiro por levantar diagnósticos sobre o estado da arte dos estudos de segurança regional apontando quais seus déficits metodológicos e epistemológicos, o que passa prescrever formas de superação dessas deficiências. Certamente as agendas não se esgotam naquela tarefa: existem agendas que devem ser encaradas tais como: i) a natureza e desafios para o tipo de paz permanente ou “longa paz” estatal que vive a região; ii) o impacto dos fenômenos sociais, especialmente da violência social, na construção de uma comunidade de segurança; iii) uma avaliação sobre os dilemas de segurança regionais; ii) um balanço da cooperação regional em segurança e defesa; v) um balanço do impacto da região sobre a segurança regional a partir da participação em peacekeepings; iv) um balanço das ameaças transnacionais e atores. O ponto positivo a destacar é que esses variados pontos das agendas de pesquisa devem ser empreendidos por uma nova leva de pesquisadores mais abertos a metodologias e epistemologias que captam processos empíricos em mudança política e social.

Leia o artigo

Villa, Rafael Duarte. (2017). Brazilian Hybrid Security in South America. Revista Brasileira de Política Internacional, 60(2), e003. Epub October 19, 2017.https://dx.doi.org/10.1590/0034-7329201700203

Sobre os autores

Rafael Duarte Villa – Universidade de São Paulo, Departamento de Ciência Política, São Paulo – SP, Brazil (rafaelvi@usp.br).

André Mendes Pini, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e membro da equipe de divulgação da RBPI.

Como citar esta entrevista

aclessa, "Brazilian hybrid security in South America – uma entrevista com Rafael Villa, por André Pini," in Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, 17/11/2017, http://www.ibri-rbpi.org/?p=16185.

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